As Duas Londrinas

Um artigo publicado no jornal Folha de Londrina em 26/07, Espaço Aberto, escrito por dois professores membros do NIGEP – Núcleo Interdisciplinar de Gestão Pública: Luís Miguel Luzio dos Santos, Professor de Socioeconomia na UEL e Saulo Fabiano Amâncio Vieira, Professor e pesquisador do Depto. de Administração da UEL trouxe de forma excelente reflexões e muito o que pensar.

Por sua clareza e oportunidade em tempos de nova gestão pública, achamos interessante ressaltar sua importância, republicando neste espaço, com a devida autorização dos autores e convidamos todos à olhar com cuidado para o futuro de nossa cidade, pensando e trabalhando hoje o que queremos para o amanhã:

As Duas Londrinas

Luís Miguel Luzio dos Santos e Saulo Fabiano Amâncio Vieira

OPINIÃO / ESPAÇO ABERTO – FOLHA DE LONDRINA
Sábado, 26 de julho de 2025

O modelo de cidade que somos convidados a construir não deve ser medido pelo número de milionários, mas pela ausência de pobreza.

Londrina é uma cidade que impressiona. Com apenas 90 anos de fundação e uma população de 577 mil habitantes, destaca-se pelo vigor econômico, imponente urbanização e espírito empreendedor.

O Produto Interno Bruto da cidade já ultrapassa os R$ 23 bilhões e ocupa o 47º lugar entre os 5.570 municípios brasileiros. Possui um pujante e diversificado comércio, universidades de referência nacional e um centro de saúde de excelência.

À primeira vista, parece uma cidade modelo. Mas as aparências enganam. A realidade esconde uma outra Londrina muito menos glamorosa, invisibilizada nas periferias que contabiliza cerca de 150.000 pessoas em situação de pobreza ou miséria (SAGICAD 2023).

Recentemente, foi divulgado o Índice de Progresso Social (IPS), um indicador lançado oficialmente em 2013 pela organização Social Progress Imperative, com apoio de universidades como a Harvard Business School. Trata-se de uma métrica multidimensional que mede a qualidade de vida de uma população. Concentra-se em resultados sociais e ambientais, fundamentos do bem-estar social, entendendo a dimensão econômica como meio e não como fim.

O índice inclui critérios como moradia, alimentação e segurança, passando por itens como acesso à informação, comunicação, internet banda larga, até oportunidades de desenvolvimento humano e igualdade de tratamento quando o assunto é gênero, raça ou orientação sexual.

Os resultados de Londrina, referentes ao período entre 2021 e 2024, revelaram uma realidade que surpreendeu a muitos. Conforme o IPS, a cidade encontra-se na 222ª posição entre todos os municípios brasileiros, o que atesta a incapacidade de traduzir riqueza em qualidade de vida para todos.

Em termos estaduais, a segunda maior cidade do Paraná ocupa a 19ª posição no mesmo indicador, ficando abaixo de Maringá, Toledo, Curitiba e até de cidades menores que, mesmo com recursos limitados, conseguem administrar melhor seus orçamentos com vistas a promover o bem comum.

Londrina teve bom desempenho em apenas oito dos 57 indicadores avaliados. Entre os pontos positivos estão o abastecimento de água, a qualidade do ensino fundamental e a presença de áreas verdes. Já os itens com pontuação ruim são “domicílios com iluminação elétrica adequada”, “famílias em situação de rua” e “violência contra mulheres”.

Fica claro que existem duas Londrinas: uma vigorosa e pujante, que se assemelha às boas cidades do mundo; e outra, dominada pela pobreza, com infraestrutura precária, onde faltam serviços públicos básicos e transbordam carências e o descaso.

O modelo de cidade que somos convidados a construir não deve ser medido pelo número de milionários, mas pela ausência de pobreza; tampouco pelo número de condomínios de luxo, mas pela erradicação das favelas; nem pelo tamanho dos arranha-céus, mas pela presença de áreas verdes e parques públicos; não pelo aparato ostensivo de segurança, mas pela ausência da necessidade de muros.

Desenvolvimento não é acúmulo concentrado de riqueza, mas superação da pobreza. As melhorias que Londrina precisa devem partir das periferias em direção ao centro. É necessário fortalecer os serviços públicos essenciais, como assistência social, saúde, educação integral de qualidade, ampliar centros de lazer, cultura e esporte, implementar cotas sociais e raciais nos concursos públicos, incentivar o cooperativismo popular, fortalecer as associações de bairro e adotar o orçamento participativo.

É urgente a elaboração de um plano de desfavelização. É inadmissível que parte da cidade viva em condições extremas de precariedade enquanto os bairros de luxo proliferam numa velocidade impressionante. Só assim Londrina poderá ser não apenas bela, mas também justa e verdadeiramente humanizada.

Luís Miguel Luzio dos Santos

Professor de Socioeconomia na UEL e membro do NIGEP – Núcleo Interdisciplinar de Gestão Pública

Saulo Fabiano Amâncio Vieira

Professor e pesquisador do Depto. de Administração da UEL e do NIGEP – Núcleo Interdisciplinar de Gestão Pública

Fonte original: Folha de Londrina – Espaço Aberto – 26 de julho de 2025

Autorizacão: Professor Luis Miguel Luzio dos Santos

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